28 de julho de 2011

Os Medos

Os medos cativam-se aos poucos, como a um animal perigoso ao qual entregamos diariamente pedacinhos de comida, a uma distância gradualmente mais curta. Até que chega o dia em que ele virá comer na nossa mão.
O segredo talvez esteja em nunca subestimá-lo... ou àquilo que o gera; antes, gerir esse sentimento, evoluir nele, até o ultrapassar. O medo vive da nossa paralisia e da nossa fuga. Existe porque decidimos sem saber que queríamos que ele existisse. Se, por vezes, está ligado ao instinto de sobrevivência, outras vezes abafa todas as possibilidades de vida.

17 de julho de 2011

À Procura do Sol

A ilha acordou hoje triste, cinzenta. Uma chuva miudinha quase fazia esquecer que estamos no Verão. Ao longe, debruçada sobre o casario branco, a montanha da Lagoa do Fogo ostentava, desdenhosa, um fino véu prateado que lhe ocultava o rosto.
Após o almoço, saimos à procura do sol (até mesmo as ilhas, como as pessoas, sofrem de contrastes: ora aqui chove ora mais além ele brilha, poderoso). Pelo caminho serpenteante de verde, como que o céu se foi abrindo aos poucos; atravessada a cintura da ilha e chegados a Vila Franca do Campo, já todo ele era irremediavelmente azul.
As crianças pediram o Aquaparque - elas têm uma forma muita própria de sabedoria profunda, porque não filtram a alegria. Recebem-na de braços abertos.
No corpinho radiante e molhado da Inês, na alegria da aventura deslizante do André, no amor que quase não precisa de palavras da minha mulher, de novo encontrei mais uma fatia de felicidade, que é sempre esquiva, quase furtiva, como quem desce vertiginosamente por um escorrega molhado. Mas esse curto trajecto leva em si todo o nosso coração e tudo o que nós somos.



15 de julho de 2011

Amam-se

Admiram-se a si próprios, acima de tudo. Sobre todo e qualquer assunto opinam, com autoridade misteriosa. As suas ideias, claras como águas de praias tropicais, sobrepõem-se e impõem-se. Acham-se superiores - logo, pensam que não precisam dos outros, os que apenas orbitam à sua volta. Incapazes de um grão de empatia, magoam e nem disso se dão conta. Não valorizam, não empolgam, não envolvem, não amam. Amam-se. Apenas cuidam de si e daqueles a quem bajulam.
Apesar do elevado preço, quero continuar a acreditar que a riqueza do homem é a consciência limpa, as mãos trabalhadoras e o coração humilde que não olha as pessoas de cima para baixo... nem de fora para dentro.