Ao descer a rua do cemitério do Pico da Pedra, às vezes ele surge no pára-brisas, cresce e desaparece abruptamente. Numa fracção de segundo acena-me e eu aceno-lhe. Não sei o seu nome e ele nada sabe de mim. Talvez acenemos à humanidade que partilhamos, essa profunda comunhão, mais nada.
Ele calça botas de cano e usa roupa semelhante à de um polícia de trânsito. Do seu telemóvel avariado fala para alguém importante. Aquela é a sua rua, aqueles são os carros à sua responsabilidade. Sou mais uma personagem do seu mundo linear, onde ele tem uma missão a cumprir.
O seu rosto confuso entrou pela minha casa dentro através de uma reportagem da RTP-Açores, que noticiava brevemente outra história de miséria e de abandono. Dois irmãos doentes mentais, um pai idoso, doente e irado que recusa a ajuda das entidades, a fome, a violência, o sofrimento brutal, a casa suja partilhada com animais domésticos. Deitado numa cama desarrumada, os seus olhos sem expressão fitaram-me brevemente através do ecrã...
Um dia saio de mim e páro o carro. Aperto a sua mão e falo com ele. Partilho com ele uma refeição. Chamo-o pelo seu nome. Crio laços com aquele homem silencioso que grita na minha consciência.
Miserável e sujo, só o meu coração.
28 de agosto de 2011
16 de agosto de 2011
Anjos
Travei conhecimento com eles muito cedo. Apareciam dentro da moldura na mesinha de cabeceira ou bordados numa almofada macia, com sorriso fixo, olhar infantil e meigo.
Quando entrei para a catequese, foi-me revelada uma nova, inesperada e extraordinária faceta dos anjos: o anjo da guarda! Um ser loiro, etéreo, esguio, de rosto claro e belo, asas perfeitamente alinhadas, que nos protegia de perigos ignotos: cabeças partidas, dentes prematuramente desaparecidos e outros desastres ainda piores...
Ao longo do tempo encontrava-os por acaso e acenavam-me com aquela expressão transcendente nas igrejas, esculpidos no basalto maciço e rude ou na talha ricamente doirada; em grandes pinturas, com as cores esbatidas, a flutuarem por céus altíssimos, servindo o Criador ou amparando algum Santo mais dependente; nas ilustrações dos livros infantis e da Bíblia, traçados pela mão hábil de alguém que em algum momento terá tido à sua frente o modelo original.
Sentia especial afeição pelo anjo Gabriel; primeiro, por ter um nome igual ao de um colega da escola primária com quem partilhava a carteira. Depois porque, de algum modo, era cúmplice na feitura do Natal, com as consequências benéficas que daí advinham.
Todos os anos, no meio de Agosto, os anjos dignavam-se passar em frente à minha casa, aninhados aos pés da padroeira, Nossa Senhora dos Anjos, precisamente. Carregada aos ombros por homens ofegantes, parecia começar a levitar em direcção ao paraíso, sob o auspício daquelas pequenas cabeças morenas, que as asinhas brancas e tenras ajudavam a destacar.
Só muito mais tarde me dei conta de uma forma subtil e sofisticada de ser anjo. São os anjos sem asas. Ou melhor, são os anjos com asas invisíveis. Parecem pessoas perfeitamente normais, como nós, mas são anjos. São discretos e generosos, não pretendem ser notados. Se quisermos, com alguma atenção e paciência, acabamos por detectá-los: a enfermeira que trata com amor do moribundo, o religioso que entrega a sua vida ao serviço dos doentes mentais, o voluntário que visita alguém perdido na mais negra solidão, a mãe que abraça os filhos, o amigo que escuta e aconselha... são tantos...
Não tenho a certeza, mas - sabem? - aquela sensação de frescura e de conforto que sentimos quando um destes anjos se abeira de nós? Acho que acontece no preciso momento em que nos envolve com as suas magníficas e invisíveis asas.
Quando entrei para a catequese, foi-me revelada uma nova, inesperada e extraordinária faceta dos anjos: o anjo da guarda! Um ser loiro, etéreo, esguio, de rosto claro e belo, asas perfeitamente alinhadas, que nos protegia de perigos ignotos: cabeças partidas, dentes prematuramente desaparecidos e outros desastres ainda piores...
Ao longo do tempo encontrava-os por acaso e acenavam-me com aquela expressão transcendente nas igrejas, esculpidos no basalto maciço e rude ou na talha ricamente doirada; em grandes pinturas, com as cores esbatidas, a flutuarem por céus altíssimos, servindo o Criador ou amparando algum Santo mais dependente; nas ilustrações dos livros infantis e da Bíblia, traçados pela mão hábil de alguém que em algum momento terá tido à sua frente o modelo original.
Sentia especial afeição pelo anjo Gabriel; primeiro, por ter um nome igual ao de um colega da escola primária com quem partilhava a carteira. Depois porque, de algum modo, era cúmplice na feitura do Natal, com as consequências benéficas que daí advinham.
Todos os anos, no meio de Agosto, os anjos dignavam-se passar em frente à minha casa, aninhados aos pés da padroeira, Nossa Senhora dos Anjos, precisamente. Carregada aos ombros por homens ofegantes, parecia começar a levitar em direcção ao paraíso, sob o auspício daquelas pequenas cabeças morenas, que as asinhas brancas e tenras ajudavam a destacar.
Só muito mais tarde me dei conta de uma forma subtil e sofisticada de ser anjo. São os anjos sem asas. Ou melhor, são os anjos com asas invisíveis. Parecem pessoas perfeitamente normais, como nós, mas são anjos. São discretos e generosos, não pretendem ser notados. Se quisermos, com alguma atenção e paciência, acabamos por detectá-los: a enfermeira que trata com amor do moribundo, o religioso que entrega a sua vida ao serviço dos doentes mentais, o voluntário que visita alguém perdido na mais negra solidão, a mãe que abraça os filhos, o amigo que escuta e aconselha... são tantos...
Não tenho a certeza, mas - sabem? - aquela sensação de frescura e de conforto que sentimos quando um destes anjos se abeira de nós? Acho que acontece no preciso momento em que nos envolve com as suas magníficas e invisíveis asas.
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