28 de agosto de 2011

Aquele homem silencioso

Ao descer a rua do cemitério do Pico da Pedra, às vezes ele surge no pára-brisas, cresce e desaparece abruptamente. Numa fracção de segundo acena-me e eu aceno-lhe. Não sei o seu nome e ele nada sabe de mim. Talvez acenemos à humanidade que partilhamos, essa profunda comunhão, mais nada.
Ele calça botas de cano e usa roupa semelhante à de um polícia de trânsito. Do seu telemóvel avariado fala para alguém importante. Aquela é a sua rua, aqueles são os carros à sua responsabilidade. Sou mais uma personagem do seu mundo linear, onde ele tem uma missão a cumprir.
O seu rosto confuso entrou pela minha casa dentro através de uma reportagem da RTP-Açores, que noticiava brevemente outra história de miséria e de abandono. Dois irmãos doentes mentais, um pai idoso, doente e irado que recusa a ajuda das entidades, a fome, a violência, o sofrimento brutal, a casa suja partilhada com animais domésticos. Deitado numa cama desarrumada, os seus olhos sem expressão fitaram-me brevemente através do ecrã...
Um dia saio de mim e páro o carro. Aperto a sua mão e falo com ele. Partilho com ele uma refeição. Chamo-o pelo seu nome. Crio laços com aquele homem silencioso que grita na minha consciência.
Miserável e sujo, só o meu coração.




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