16 de agosto de 2011

Anjos

Travei conhecimento com eles muito cedo. Apareciam dentro da moldura na mesinha de cabeceira ou bordados numa almofada macia, com sorriso fixo, olhar infantil e meigo.
Quando entrei para a catequese, foi-me revelada uma nova, inesperada e extraordinária faceta dos anjos: o anjo da guarda! Um ser loiro, etéreo, esguio, de rosto claro e belo, asas perfeitamente alinhadas, que nos protegia de perigos ignotos: cabeças partidas, dentes prematuramente desaparecidos e outros desastres ainda piores...
Ao longo do tempo encontrava-os por acaso e acenavam-me com aquela expressão transcendente nas igrejas, esculpidos no basalto maciço e rude ou na talha ricamente doirada; em grandes pinturas, com as cores esbatidas, a flutuarem por céus altíssimos, servindo o Criador ou amparando algum Santo mais dependente; nas ilustrações dos livros infantis e da Bíblia, traçados pela mão hábil de alguém que em algum momento terá tido à sua frente o modelo original.
Sentia especial afeição pelo anjo Gabriel; primeiro, por ter um nome igual ao de um colega da escola primária com quem partilhava a carteira. Depois porque, de algum modo, era cúmplice na feitura do Natal, com as consequências benéficas que daí advinham.
Todos os anos, no meio de Agosto, os anjos dignavam-se passar em frente à minha casa, aninhados aos pés da padroeira, Nossa Senhora dos Anjos, precisamente. Carregada aos ombros por homens ofegantes, parecia começar a levitar em direcção ao paraíso, sob o auspício daquelas pequenas cabeças morenas, que as asinhas brancas e tenras ajudavam a destacar.
Só muito mais tarde me dei conta de uma forma subtil e sofisticada de ser anjo. São os anjos sem asas. Ou melhor, são os anjos com asas invisíveis. Parecem pessoas perfeitamente normais, como nós, mas são anjos. São discretos e generosos, não pretendem ser notados. Se quisermos, com alguma atenção e paciência, acabamos por detectá-los: a enfermeira que trata com amor do moribundo, o religioso que entrega a sua vida ao serviço dos doentes mentais, o voluntário que visita alguém perdido na mais negra solidão, a mãe que abraça os filhos, o amigo que escuta e aconselha... são tantos...
Não tenho a certeza, mas - sabem? - aquela sensação de frescura e de conforto que sentimos quando um destes anjos se abeira de nós? Acho que acontece no preciso momento em que nos envolve com as suas magníficas e invisíveis asas.


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