18 de fevereiro de 2012

A Subida
Lá em cima, alvamente sobranceiro à bela Vila Franca do Campo, estava o nosso objetivo -  o Santuário de Nossa Senhora da Paz. Iniciámos a caminhada, primeiro pelas ruas planas e tranquilas, de casario branco, aos poucos a subir, por entre campos lavrados, estufas de ananáses silenciosas, bananais, um vinhedo onde um velho fumava um cigarro feito de folhas de milho, como se estivesse dentro de uma eternidade.
Quando o caminho realmente se tornou inclinado, as pernas reclamaram. Fomos parando, dando conta de quanta beleza desperdiçamos com a nossa pressa: o rumor de árvores enormes, a Vila Franca debruçada sobre o mar, como fina toalha de renda, o mar calmíssimo, o ilhéu que faz lembrar um abraço dentro do azul. A cada passo, nas bermas da estrada, mesas de pedra convidam a sentar e a olhar com todos os sentidos.
O último cotovelo de caminho revelou-nos finalmente o Santuário. Incrustado no verde, é um daqueles lugares onde sentimos tranquilidade, de um modo que não conseguimos explicar com facilidade. Sentimos apenas.
Cada lanço de degraus representa um mistério do rosário, cada degrau uma avé-maria. Subir aquela escadaria é como penetrar numa oração a três dimensões. Ao cimo, a vista é fascinante. Uma grande cruz negra, feita de basalto, abre os seus braços, faça sol ou faça chuva, um monumento à resistência da fé. Nas paredes do templo, grandes azulejos relembram as leis de Deus e as bem-aventuranças. A toda a volta, flores cuidadas com zelo mostram-se, garbosas. A pequena capela está fechada, mas podemos descansar, conversar e até namorar um bocadinho...
Muitas vezes sinto-me longe de Deus, como de alguém distante, desligado da vida concreta e tangível. Hoje percebi. Deus quer que queiramos ir ter com Ele. Encetar a caminhada requer uma decisão. Percorrer esta decisão exige esforço, que nem sempre é fácil, embora seja sempre belo. Entre a sede e uma laranja na árvore, a distância tem o tamanho do nosso braço.
Ele fala connosco, de tantas formas. Ama-nos e protege-nos tantas vezes que nem chegamos a dar-nos conta. Em troca, só nos pede que, enquanto os nossos pés descem a montanha, o nosso coração não interrompa a subida...




13 de setembro de 2011

Do Mesmo Barro

Uma a uma, alinha as telhas, já limpas, ao longo do telhado. As mãos, envelhecidas para os seus quarenta e sete anos, mexem-se rapidamente e criam uma obra de arte só visível do céu.
Fazemos uma pequena pausa, bebemos cerveja contra o calor da tarde. Aquele homem magro e solitário, olhos castanhos e cabelos negros sujos de pó, fala um pouco do seu passado, como quem desvia uma telha pesada. Ser abandonado pelos pais foi bem cedo um buraco demasiado grande no tecto da sua vida, que uma tia e o tempo ajudaram a cobrir. "Pode ser-se roubado para sempre", diz-me o seu silêncio humilde e triste. "Vivo do que aparece". Sabe de agricultura, de construção, de tudo o que as mãos possam transformar... há algo de nómada e de provisório no seu modo de estar - penso para mim, enquanto regressa agilmente, pela escada, àquele telhado desventrado.
Quando as primeiras chuvas do Outono chegarem vou lembrar-me de ti. A tua história triste fica escrita nas centenas de telhas que então irão abrigar-me. Do mesmo barro todos fomos feitos.



5 de setembro de 2011

Suave Travo

Dançou toda a noite. Abraçou, beijou, rodopiou, bebeu, cantou, gritou, confundiu-se com o som alto e com as luzes frenéticas da discoteca. Sentia-se leve, liberta e linda. Como se passeasse ao longo de uma nuvem em movimento.

Esqueceu tudo e todos. Esqueceu-se a si.

Quando chegou a casa, caiu desamparada na cama, respirou fundo, um suave travo de tristeza, adormeceu.

28 de agosto de 2011

Aquele homem silencioso

Ao descer a rua do cemitério do Pico da Pedra, às vezes ele surge no pára-brisas, cresce e desaparece abruptamente. Numa fracção de segundo acena-me e eu aceno-lhe. Não sei o seu nome e ele nada sabe de mim. Talvez acenemos à humanidade que partilhamos, essa profunda comunhão, mais nada.
Ele calça botas de cano e usa roupa semelhante à de um polícia de trânsito. Do seu telemóvel avariado fala para alguém importante. Aquela é a sua rua, aqueles são os carros à sua responsabilidade. Sou mais uma personagem do seu mundo linear, onde ele tem uma missão a cumprir.
O seu rosto confuso entrou pela minha casa dentro através de uma reportagem da RTP-Açores, que noticiava brevemente outra história de miséria e de abandono. Dois irmãos doentes mentais, um pai idoso, doente e irado que recusa a ajuda das entidades, a fome, a violência, o sofrimento brutal, a casa suja partilhada com animais domésticos. Deitado numa cama desarrumada, os seus olhos sem expressão fitaram-me brevemente através do ecrã...
Um dia saio de mim e páro o carro. Aperto a sua mão e falo com ele. Partilho com ele uma refeição. Chamo-o pelo seu nome. Crio laços com aquele homem silencioso que grita na minha consciência.
Miserável e sujo, só o meu coração.




16 de agosto de 2011

Anjos

Travei conhecimento com eles muito cedo. Apareciam dentro da moldura na mesinha de cabeceira ou bordados numa almofada macia, com sorriso fixo, olhar infantil e meigo.
Quando entrei para a catequese, foi-me revelada uma nova, inesperada e extraordinária faceta dos anjos: o anjo da guarda! Um ser loiro, etéreo, esguio, de rosto claro e belo, asas perfeitamente alinhadas, que nos protegia de perigos ignotos: cabeças partidas, dentes prematuramente desaparecidos e outros desastres ainda piores...
Ao longo do tempo encontrava-os por acaso e acenavam-me com aquela expressão transcendente nas igrejas, esculpidos no basalto maciço e rude ou na talha ricamente doirada; em grandes pinturas, com as cores esbatidas, a flutuarem por céus altíssimos, servindo o Criador ou amparando algum Santo mais dependente; nas ilustrações dos livros infantis e da Bíblia, traçados pela mão hábil de alguém que em algum momento terá tido à sua frente o modelo original.
Sentia especial afeição pelo anjo Gabriel; primeiro, por ter um nome igual ao de um colega da escola primária com quem partilhava a carteira. Depois porque, de algum modo, era cúmplice na feitura do Natal, com as consequências benéficas que daí advinham.
Todos os anos, no meio de Agosto, os anjos dignavam-se passar em frente à minha casa, aninhados aos pés da padroeira, Nossa Senhora dos Anjos, precisamente. Carregada aos ombros por homens ofegantes, parecia começar a levitar em direcção ao paraíso, sob o auspício daquelas pequenas cabeças morenas, que as asinhas brancas e tenras ajudavam a destacar.
Só muito mais tarde me dei conta de uma forma subtil e sofisticada de ser anjo. São os anjos sem asas. Ou melhor, são os anjos com asas invisíveis. Parecem pessoas perfeitamente normais, como nós, mas são anjos. São discretos e generosos, não pretendem ser notados. Se quisermos, com alguma atenção e paciência, acabamos por detectá-los: a enfermeira que trata com amor do moribundo, o religioso que entrega a sua vida ao serviço dos doentes mentais, o voluntário que visita alguém perdido na mais negra solidão, a mãe que abraça os filhos, o amigo que escuta e aconselha... são tantos...
Não tenho a certeza, mas - sabem? - aquela sensação de frescura e de conforto que sentimos quando um destes anjos se abeira de nós? Acho que acontece no preciso momento em que nos envolve com as suas magníficas e invisíveis asas.


28 de julho de 2011

Os Medos

Os medos cativam-se aos poucos, como a um animal perigoso ao qual entregamos diariamente pedacinhos de comida, a uma distância gradualmente mais curta. Até que chega o dia em que ele virá comer na nossa mão.
O segredo talvez esteja em nunca subestimá-lo... ou àquilo que o gera; antes, gerir esse sentimento, evoluir nele, até o ultrapassar. O medo vive da nossa paralisia e da nossa fuga. Existe porque decidimos sem saber que queríamos que ele existisse. Se, por vezes, está ligado ao instinto de sobrevivência, outras vezes abafa todas as possibilidades de vida.

17 de julho de 2011

À Procura do Sol

A ilha acordou hoje triste, cinzenta. Uma chuva miudinha quase fazia esquecer que estamos no Verão. Ao longe, debruçada sobre o casario branco, a montanha da Lagoa do Fogo ostentava, desdenhosa, um fino véu prateado que lhe ocultava o rosto.
Após o almoço, saimos à procura do sol (até mesmo as ilhas, como as pessoas, sofrem de contrastes: ora aqui chove ora mais além ele brilha, poderoso). Pelo caminho serpenteante de verde, como que o céu se foi abrindo aos poucos; atravessada a cintura da ilha e chegados a Vila Franca do Campo, já todo ele era irremediavelmente azul.
As crianças pediram o Aquaparque - elas têm uma forma muita própria de sabedoria profunda, porque não filtram a alegria. Recebem-na de braços abertos.
No corpinho radiante e molhado da Inês, na alegria da aventura deslizante do André, no amor que quase não precisa de palavras da minha mulher, de novo encontrei mais uma fatia de felicidade, que é sempre esquiva, quase furtiva, como quem desce vertiginosamente por um escorrega molhado. Mas esse curto trajecto leva em si todo o nosso coração e tudo o que nós somos.