13 de setembro de 2011

Do Mesmo Barro

Uma a uma, alinha as telhas, já limpas, ao longo do telhado. As mãos, envelhecidas para os seus quarenta e sete anos, mexem-se rapidamente e criam uma obra de arte só visível do céu.
Fazemos uma pequena pausa, bebemos cerveja contra o calor da tarde. Aquele homem magro e solitário, olhos castanhos e cabelos negros sujos de pó, fala um pouco do seu passado, como quem desvia uma telha pesada. Ser abandonado pelos pais foi bem cedo um buraco demasiado grande no tecto da sua vida, que uma tia e o tempo ajudaram a cobrir. "Pode ser-se roubado para sempre", diz-me o seu silêncio humilde e triste. "Vivo do que aparece". Sabe de agricultura, de construção, de tudo o que as mãos possam transformar... há algo de nómada e de provisório no seu modo de estar - penso para mim, enquanto regressa agilmente, pela escada, àquele telhado desventrado.
Quando as primeiras chuvas do Outono chegarem vou lembrar-me de ti. A tua história triste fica escrita nas centenas de telhas que então irão abrigar-me. Do mesmo barro todos fomos feitos.



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