A Subida
Lá em cima, alvamente sobranceiro à bela Vila Franca do Campo, estava o nosso objetivo - o Santuário de Nossa Senhora da Paz. Iniciámos a caminhada, primeiro pelas ruas planas e tranquilas, de casario branco, aos poucos a subir, por entre campos lavrados, estufas de ananáses silenciosas, bananais, um vinhedo onde um velho fumava um cigarro feito de folhas de milho, como se estivesse dentro de uma eternidade.
Quando o caminho realmente se tornou inclinado, as pernas reclamaram. Fomos parando, dando conta de quanta beleza desperdiçamos com a nossa pressa: o rumor de árvores enormes, a Vila Franca debruçada sobre o mar, como fina toalha de renda, o mar calmíssimo, o ilhéu que faz lembrar um abraço dentro do azul. A cada passo, nas bermas da estrada, mesas de pedra convidam a sentar e a olhar com todos os sentidos.
O último cotovelo de caminho revelou-nos finalmente o Santuário. Incrustado no verde, é um daqueles lugares onde sentimos tranquilidade, de um modo que não conseguimos explicar com facilidade. Sentimos apenas.
Cada lanço de degraus representa um mistério do rosário, cada degrau uma avé-maria. Subir aquela escadaria é como penetrar numa oração a três dimensões. Ao cimo, a vista é fascinante. Uma grande cruz negra, feita de basalto, abre os seus braços, faça sol ou faça chuva, um monumento à resistência da fé. Nas paredes do templo, grandes azulejos relembram as leis de Deus e as bem-aventuranças. A toda a volta, flores cuidadas com zelo mostram-se, garbosas. A pequena capela está fechada, mas podemos descansar, conversar e até namorar um bocadinho...
Muitas vezes sinto-me longe de Deus, como de alguém distante, desligado da vida concreta e tangível. Hoje percebi. Deus quer que queiramos ir ter com Ele. Encetar a caminhada requer uma decisão. Percorrer esta decisão exige esforço, que nem sempre é fácil, embora seja sempre belo. Entre a sede e uma laranja na árvore, a distância tem o tamanho do nosso braço.
Ele fala connosco, de tantas formas. Ama-nos e protege-nos tantas vezes que nem chegamos a dar-nos conta. Em troca, só nos pede que, enquanto os nossos pés descem a montanha, o nosso coração não interrompa a subida...
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